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O Comboio

E tudo vai seguindo o misterioso rumo
À formidável luz de mil inovações
Ao ruído dos comboios que entre nuvens de fumo
Conduzem o progresso através das nações.

Guilherme Braga

Por volta de 1870, tinha início a construção do caminho-de-ferro da linha do Minho, entre Campanhã e Nine, que era inaugurado, com grande pompa e circunstância em 21 de Maio de 1875.

Estação de Caminho de Ferro de São RomãoFoi o momento de São Romão, freguesia, começar a desenvolver-se. Alongou-se no sentido Poente-Nascente, começando a apresentar uma forma paralelogrâmica.

Compreende-se o facto de a população sentir necessidade de se aproximar do importante meio de transporte existente. Desde aí, a produção agrícola e industrial multiplicou-se, os aglomerados populacionais alargam-se, foram criados novos lugares, desenvolveram-se todos os sectores económicos. Alterações de monta, provocadas pela chegada do comboio à freguesia.

Antes, tudo era diferente. O comércio, por exemplo, revestia-se de duas formas, ao longo do séc. XIX: sedentário (nas tendas e bazares) e itinerante (através dos almocreves). Havia ainda um comércio que chamaremos de misto, o praticado nas feiras e mercados.

Até meados do séc. XIX, o comércio era de pequena dimensão, não especializado, desorganizado, semelhante ao que se fazia no Antigo Regime. Na segunda metade do século, com o desenvolvimento dos transportes e dos aglomerados populacionais, aumentou o peso relativo do comércio sedentário em relação ao comércio itinerante.

A primeira foi, no virar do século a maior revolução ao nível de transportes da regiãofase da “revolução dos transportes” diz respeito exactamente ao caminho-de-ferro, O comboio desempenhou o papel de liderança nessa revolução. Permitiu uma série de alterações estruturais da sociedade, como a libertação de capital e de mão-de-obra, a aproximação de mercados e regiões e níveis mais elevados de produção.

O transporte é uma actividade económica fundamental que desempenha uma função complexa e múltipla no funcionamento e no mecanismo de desenvolvimento de um país. Ele modifica nitidamente a geografia física e humana pela organização das cidades e das localizações industriais; permite trocas de bens e de pessoas entre as diferentes partes do território assim como com o exterior. Sem transporte as relações entre pessoas ou entre unidades de produção seriam impossíveis; a produção não seria diversificada, o comércio seria muito limitado e a escala à vida social não poderia ser senão muito reduzida.

R Callon e D. Schwartz – Les Transports face aux Changements Structurels (1980)

Inauguração do Caminho de Ferro em 17-04-1967Em Portugal, até à revolução industrial, os transportes terrestres foram assegurados pelo próprio homem, que frequentemente recorria aos animais. Depois das lutas liberais que abalaram Portugal, tornava-se urgente dinamizar as estruturas económicas e sociais do país. Só o comboio poderia desempenhar essa função dinamizadora e reconstrutora.

Em meados do séc. XIX, propaga-se a “febre dos transportes”, com o cabralismo. Estradas, diligências e sonhos de caminho-de-ferro empolgam a Burguesia citadina. As descrições jornalísticas das maravilhas ferroviárias do estrangeiro, “onde a rapidez do homem excede a do vento”, criavam um clima de expectativa e euforia. O comboio materializava a própria imagem do progresso.

Em Dezembro de 1884, funda-se a Companhia das Obras Públicas, à qual foi concedida a construção de uma linha férrea de Lisboa à fronteira espanhola. Mas tanto a Companhia como a linha férrea acabariam por não passar de meros projectos, inconsequentes.

Inauguração da Estação de ComboioAcabaria por ser com Fontes Pereira de Melo que se iniciariam os primeiros trabalhos de assentamento do caminho de ferro. Um novo passo na política de fomento do país e que muitoLargo do Correios de São Romão do Coronado – antes da remodelação contribuiu para o seu progresso. Entre 1853 e 1856, é constituído o troço de 36 Km entre Lisboa e Carregado. A partir daí e até ao final do século, a instalação das vias férreas efectuou-se a um ritmo muito acelerado.

Além da Siderurgia e de outras indústrias ligadas directamente à construção e exploração ferroviária, esta beneficiou a indústria em geral, a agricultura e o comércio, a circulação de pessoas e de ideias. Foi factor de atracção demográfica e induziu o desenvolvimento das vias rodoviárias e das comunicações, alterando mesmo o próprio conceito de velocidade.

Com o caminho de ferro, várias novidades. Os horários, por exemplo. Como referia Francisco Leite Pinto (O Comboio Não Chegou à Tabela) “todos aprenderam que se devia partir à tabela”.

Quem ignora hoje que as linhas-de-ferro vieram resolver o problema de conciliar a velocidade com a barateza, juntar à certeza da circulação em todos os aspectos a aptidão para toda a espécie de transportes, casar a influência política com a acção económica sobre o futuro das nações? A linha de ferro é o complemento da imprensa; esta põe em contacto as ideias, aquela aproxima os homens; ambas tendem para a unidade do género humano.

In: Revista Popular, n.º 45, 1851, in José Mattoso – História de Portugal Vol. V, pág. 375 (1994)

Tudo isto foi posto em marcha pelo comboio. São Romão desenvolveu-se a partir daí e tomou-se, progressivamente, no que é hoje: uma grande freguesia do concelho da Trofa, virada para o futuro.

Atual Estação de ComboioNa estação da CP de São Romão do Coronado, está uma Nora, utilizada para tirar a água de um poço ali existente. Esta nora, tão bela quão incomum numa Estação de comboios, parou, encontra-se enferrujada e velha, já não canta nem encanta com o seu elegante e ritmado movimento.

Foram verdadeiros beneméritos da Pátria quantos, em tão curto período de tempo, transformaram um País onde antes se levava 15 dias de Lisboa a Bragança, num outro animado pelo sopro do progresso material.

Os nomes de João Evangelista de Abreu, de Joaquim Nunes de Aguiar, de Cândido Xavier Cordeiro, entre tantos outros, devem ser lembrados entre os engenheiros que trabalharam nesse plano que foi, dotar Portugal de vias férreas!

O país fora dotado ao longo de 40 anos da rede ferroviária de que carecia para o seu progresso urbano e regional. As ligações com a Espanha, pelas fronteiras de Marvão, Valença e Vilar Formoso permitiam o desejado intercâmbio com a Europa transpirenaica. O interior aproximou-se do Litoral, na maior circulação de pessoas e bens. Se o comércio inter-regional colheu benefícios dessa aproximação, a indústria obteve melhores condições para o seu desenvolvimento. O investimento feito pelo Estado na construção dos caminhos de ferro teve ainda um resultado fecundo, na medida em que modificou hábitos rotineiros e abriu novas concepções do viver social.

Joaquim Veríssimo Serrão – História de Portugal, Vol. IX, pág. 238-239 (1986)